quinta-feira, 16 de julho de 2009

SMTUC (Parte 3)


É verdade. Venho narrar-vos mais uma história na minha autêntica saga dos SMTUC (autocarros de Coimbra). Depois das duas aventuras já narradas, chega agora mais uma. Provavelmente a última, visto que já tirei a carta e agora, como bom burguês que sou, ando no meu próprio carrinho.

Provavelmente farei uma viagem de ano a ano de autocarro, porque são experiências fantásticas e que estimulam bastante a nossa imaginação.

Isto passou-se pouco depois da minha aventura ilustrada no post "SMTUC (Parte 2) e a sociedade portuguesa", em que me tinha enganado no autocarro e acabei por perder o autocarro seguinte. Como em tantos outros dias, saí das aulas e apanhei um autocarro (desta vez com todo o cuidado para não me enganar outra vez) e fui até à PSP. Depois, como em tantos outros dias, atravessei a Baixa a correr e fui até à paragem do meu amigo autocarro 32 para Vila Pouca do Campo. Como em tantos outros dias, entrei no autocarro que tremia como em todos os outros dias e encostei-me ao vidro, de pé (porque não havia lugar sentado, como em tantos outros dias). A seguir, como em tantos outros dias, entraram aqueles velhotes e velhotas gordos(as) e mal-cheirosos(as) que comentavam a vida da Ti-Almerinda que quando era nova era uma desavergonhada. E ali fiquei, como em tantos outros dias, esborrachado contra o vidro do autocarro e a partilhar os fluidos corporais com todos aqueles velhotes simpáticos que me esmagavam ou abravam nas curvas.

Pensei para mim mesmo: "Isto hoje até está a correr bem. Ainda não perdi nenhum autocarro e tenho a certeza que desta vez apanhei o autocarro certo!" Ingenuidade minha. São os SMTUC, Mau-r-à-dona! Nunca subestimes os SMTUC, fogo!

Lá começámos a percorrer o caminho do costume quando, a certa altura se começa a ouvir um berreiro. Eram os velhos todos agitados, a esbracejar e a transpirar cada vez mais, tanto de calor como de nervosismo...

- EH! Oh chefe! Páre! - gritavam os velhos da parte de trás do autocarro.
- Oh! Patrão! Enganou-se! Não é por aqui! - reagiam os que estavam mais próximos do condutor...
- Uma pouca vergonha! É uma vergonha! Anda uma pessoa a pagar para isto! Incompetentes! - reclamava a pessoa mais jovem a seguir a mim, naquele autocarro apinhado de gente. Devia ter uns 45 anos e apesar de ter partilhado várias vezes o autocarro com ela, nunca consegui confirmar que ela não tinha algum problema mental. Eram escândalos em todas as viagens...

Depois, lá percebi o que se tinha passado. Numa rotunda ao pé do Fórum há duas saídas quase seguidas. O condutor tinha cortado na 1ª e era na 2ª. Crise. Teve de parar o autocarro, falou com os carros que estavam atrás (que entretanto já eram uns 4 ou 5) para que fizessem marcha atrás. Mas cada vez chegavam mais e mais carros. O resto podem imaginar... Em poucos minutos aquele autocarro conseguiu provocar um enorme engarrafamento.

Mas pronto, eu que ainda há pouco me dava por feliz por não me ter enganado no autocarro, lá estava, com as trombas esborrachadas contra o vidro. "Podia ser pior. Só perdemos uns 5 minutos nesta brincadeira..."

Pois, mas o que se passou a seguir foi bastante divertido. O autocarro lá arrancou e cedo se percebeu que o condutor estava empenhado em recuperar os minutos perdidos. Até Vila-Pouca foi assim uma espécie de Rally com um autocarro. Mas, já perto de minha casa e com muito menos gente no autocarro (ainda estava eu a tentar descolar-me do vidro, tal era a força com que o condutor arrancava, o que, por sua vez, atirava os velhos da frente contra os velhos do meio e os velhos do meio juntamente com os da frente empurravam com ainda mais força os de trás que, obviamente, me esborrachavam todos em conjunto contra o vidro), passou-se a parte mais dramática da viagem.

Como estava a dizer, o autocarro já tinha muito menos velhos. Eu era a única pessoa que se mantinha de pé, porque continuava a tentar descolar-me do vidro. Mas, entretanto, há uma velhinha que pesava cerca de duzentos kgs que se levanta porque vai sair na paragem seguinte, bem como outra um pouco mais magrinha (devia ter só uns 100 kgs). O condutor, que continuava alegremente o Rally, pára de repente e a partir daí foi o drama no autocarro 32.

Mal o condutor trava, só vi a velhinha de 200 kgs a ser projectada num voo fantástico (digno do Nélson Évora) e a ir a rebolar derrubar a velhinha de 100 kgs, que de repente me pareceu um pino. E eu, como até gosto de Bowling, assisti a tudo com um misto de choque e de malvadez. Ajudei as senhoras que se encontravam bem, apesar de furiosas. As coisas já estavam bem quando começa a atrasada do costume aos guinchos a chamar incompetente ao motorista e a a fazer mais um dos seus escândalos. "Foi pena que a dos 200 kgs não fosse bater nesta atrasada mental". Ainda pensei em voltar a empurrar a velha-gorda para vêr se esborrachava e calava de uma vez a jovem-atrasada-mental.

Em vez disso, preferi conter os nervos. Estava, mais uma vez, a uns míseros 2 kms de casa. Pensei para mim mesmo "2 minutos a aturar a doidinha a guinchar para o motorista ou 45 minutos a pé e ao Sol até minha casa?"

Acho que não preciso de vos dizer qual foi a minha escolha, pois não?;)

Posts relacionados:
SMTUC (Parte 1)
SMTUC (Parte 2) e a sociedade portuguesa

5 comentários:

Sis disse...

Grande blog e grande série. Estou fã!

Kikas disse...

Qualquer dia em vez de apanhar o comboio em Coimbra, apanho o 32 e apanho o comboio depois em Vila Pouca.
A avaliar por estas histórias, acho que vale a pena e, muito sinceramente, tens a certeza que queres trocar estes maravilhosos autocarros com motoristas super-competentes e passageiros amistosíssimos pelo carro? Desperdiçarias verdadeiras preciosidades!

Kafka disse...

Um dia destes tenho que te acompanhar numa destas odisseias. E acho que faço o mesmo que o kikas, parece valer a pena...

Maldini disse...

2kms em 45 minutos? Que tartaruga...

Ranhoca disse...

que saudades eu tenho de assistir tudo isso...

não fosse o autocarro da minha santa terrinha

Publicidade

Para efeitos legais é importante explicar que o nosso site usa uma Política de Publicidade com base em interesses.