sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A Casa do Povo



 A Casa do Povo acabou.

A porta que se abre com o vento, os barris de cerveja na entrada, os gritos dos moradores honorários a jogar LOL. As Escolhas do Presidente e a competição sobre Xutos, as Queimas com e sem bica de finos, as músicas personalizadas que não permitiam copos cheios. Os jogos de futebol, as discussões, as piadas, as partidas, os quartos revirados, os ataques de fúria. O Xicocó a dormir no sofá. A comida roubada à socapa e a regra de que naquele sítio tinha de haver respeito por todos menos por quem pagava as contas.

Mais que um edifício, a Casa do Povo é um entrelaçar de histórias, de risos e memórias que nos acompanharão para sempre. É o símbolo de vários anos de encontros que marcaram uma fase que não voltará.

Sim, a Casa do Povo morreu.

Mas nunca nos deixará

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A sesta




Sublinhados, apontamentos, marcadores, dedicatórias… cada livro que tenha pertencido a outra pessoa transmite muito mais do que o conteúdo das suas linhas. Esses livros falam-nos dos seus antigos donos, mostram-nos de que frases mais gostaram, revelam-nos aquilo que mais os entusiasmou.

Ao estudar um livro antigo falo com todos os que o possuíram, com todos os que nele deixaram uma marca. Faço-o com o ingénuo e egocêntrico deleite de quem acredita que as marcas foram feitas especificamente para meu próprio gozo.

Hoje perdi-me no enorme prazer de falar com alguém que partiu. Entrei no antigo escritório, peguei em cada um dos velhos livros e eis que num deles encontrei um trevo de quatro folhas consumido pelo tempo a servir de marcador.

Um trevo cinzento guardado num livro já empoeirado de tanto repouso. Pronto para ser descoberto por quem procurasse falar com o dono anterior. O trevo; quatro folhas; ali, a entregar a um neto a prenda de um avô que partira com a certeza de que ele um dia o iria procurar.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Nova era, novo design

Ao longo dos tempo as empresas vão, de forma natural, adaptando os seus logótipos e o seu design à actualidade. Aqui, no VaiPaSelva, os logos também mudam. Hoje aparece de cara lavada e de visual renovado. Não só aqui, mas também na sua página de Facebook: Facebook VaiPaSelva.

O VaiPaSelva começou em Fevereiro de 2009 como um Facebook antes do tempo. A necessidade de reunir um grupo de amigos separados geograficamente a isso obrigou. Nessa altura cheio de participantes, o blog contou com várias ajudas no desenvolvimento do seu design. Ao longo do tempo os seus participantes foram crescendo (dos generalizados 19 anos de então aos 23 de hoje) e os seus gostos mudando. Aqui ficam os vários banners e logos até hoje:
 


Banner do blog e imagem das Redes Sociais

Banner do blog e imagem das Redes Sociais 

domingo, 12 de maio de 2013

Parabéns, CDC! por Treinador de Bancada



Este era o jogo mais importante da vida daqueles jogadores. E o mais importante da vida dos treinadores. Dos directores e de muitos adeptos. Este era o jogo mais importante da história do clube, o Clube Desportivo Carapinheirense. 

O que estava em causa não era só o resultado de um jogo. Nem sequer, apenas um título. Era muito mais que isso: para muitos directores era o culminar de um trajecto de 9 anos, 365 dias vezes nove, de dedicação a um clube que ascendeu da divisão mais baixa da distrital até se sagrar, agora, campeão distrital de Coimbra e subir à segunda divisão nacional.

Foi difícil o caminho, mas seguro, sempre com decisões sustentadas. Nunca o clube entrou em loucuras – foi reforçando o plantel com segurança, com aquisições cirúrgicas, poucos mas bons. A cada ano que passava, o plantel ficava mais forte. E foi assim que se tornou possível subir sem que este êxito custasse um quarto do que custa geralmente uma subida a uma divisão nacional. Os directores do clube estão de parabéns – o que fizeram ao longo destes anos foi, de facto, notável. Basta passarmos hoje pelo parque desportivo do CDC para percebermos como tudo mudou, de há 10 anos para cá, para muito melhor. Do pelado nasceu o relvado, os balneários novos, o relvado do râguebi e, sobretudo, manteve-se a pujança de um clube que tem assistências como alguns clubes nacionais, muito maiores, não conseguem ter. Esta subida é deles, dos crónicos directores, antes de mais - são eles os verdadeiros corredores de fundo deste trabalho e não os nomeio aqui porque, não os conhecendo todos, correria o risco de estar a ser injusto com algum. Mas, para eles, não se jogou ontem um simples jogo nem um simples título, mas 9/10 anos de trabalho consistente. Se alguém merece este título são os directores do CDC que nunca esmoreceram no seu entusiasmo. Parabéns: vocês fizeram um grande trabalho!

Este é, também, claro, o título destes jogadores, um plantel fantástico, com uma grande atitude e com jogos autenticamente heróicos, quando não vai na técnica vai na alma, como o deste domingo ou como o jogo com o ançã em casa. Foi sempre esse suplemento de alma, para além da óbvia classe de alguns destes jogadores, que fez a diferença em relação a equipas com plantéis mais apetrechados (plantéis, não onzes)Todos os jogadores do plantel mereceram este título, mesmo o que jogaram menos vezes, porque todos contribuíram para o excelente espírito de equipa que sempre foi visível. Se eu estivesse formalmente ligado ao clube não destacaria nenhum e ficar-me-ia pela afirmação institucional do «todos foram importantes». Mas não sou. Como simples adepto de bancada posso opinar de outra forma e dizer aqui que embora todos tenham sido importantes, este plantel tem alguns jogadores que se destacaram por vários motivos. Assim, da defesa para o ataque, eis o que eu penso desta malta:

Guarda redes – vi três GR em acção:
Paulo André – teve o azar de se lesionar mas é, quanto a mim, o melhor guarda redes da divisão de honra. Um portento de agilidade e segurança.
Mika – foi um bom substituto do Paulo André (aliás esse foi um dos méritos da equipa técnica e da direcção que souberam sempre renovar o plantel, cirurgicamente, quando foi necessário devido a lesões dos titulares. Aconteceu noutras posições). Confesso que nos primeiros jogos em que actuou não me pareceu tão bom, mas acaba a época em grande. O seu jogo para taça com a AAC foi do outro mundo.
Marco - Entrou na equipa numa situação muito complicada por lesão do titular e impedimento do alternativo. Quem não se recorda da sua exibição no peladão do Moinhos num jogo disputado com um a menos durante 45 minutos? Esteve fantástico e merece este título por esse jogo.

Defesas
Laterais:
Ricardo – grande adaptação. Passou da posição de avançado para médio ala e recuou para lateral direito na ponta final do campeonato. Foi onde esteve melhor. É uma óptima adaptação muito bem vista pelo treinador.
Na esquerda, como sempre, esteve um histórico do clube: Luís Santos. É um dos meus jogadores preferidos pela garra e pelo empenho que contagiam os colegas. É daqueles jogadores que, não sendo um tecnicista, qualquer treinador gostaria de ter. Pelo seu passado está um pouco marcado pelos árbitros mas alia à garra uma capacidade de controlo muito grande. Consegue gerir a agressividade e, se é verdade que às vezes é expulso, também é verdade que expulsa muitos adversários, como aconteceu no domingo no jogo do título (e, quanto a mim, a expulsão do jogador do febres é o momento do jogo).
Xavier foi o lateral alternativo entrando quer para a esquerda quer para direita. É um jogador muito forte fisicamente mas ainda não controla bem as suas emoções em campo. Quando aprender a dosear a agressividade vai impor-se na equipa mas precisa de mais frieza na análise das situações de jogo.
Centrais – a dupla de centrais da primeira metade do campeonato foi formada por Tiago/André. São ambos excelentes jogadores mas nalguns jogos não se complementaram bem porque têm características idênticas de centrais técnicos, não muito físicos. O treinador viu o problema – foi mais manifesto no jogo com o Vigor na primeira volta – e mudou a dupla na segunda metade do campeonato para Chipi/Vicente. Fizeram uma dupla intratável, o contrário da outra porque são mais físicos que técnicos. São muito difíceis de bater e revelam grande coragem física nos jogos. O puto Vicente merece uma palavra especial pela sua juventude – tem condições para evoluir mais se mantiver a garra e melhorar a saída de bola.
Uma palavra final para o André que saiu da equipa na parte final mas que não pode esmorecer porque já revelou muita qualidade. Creio que pode fazer outros lugares e ser útil à equipa noutras posições (por exemplo nas laterais ou a trinco).

Meio campo –
Quanto a mim esteve aqui o ponto forte da equipa. O meio campo do CDC é o melhor do campeonato e conseguiu na maior parte dos jogos assumir a iniciativa de jogo. Isso não é de estranhar porque a equipa tem aqui jogadores que alinham juntos há anos (canoso, seidy e ivo) e ainda foi reforçada com mais um excelente tecnicista: alex. O resultado é que não há meio campo no campeonato com maior capacidade de posse de bola. Individualmente:
- Canoso – foi o trinco da equipa de princípio ao fim. Pareceu-me que perdeu este ano um pouco do nervo e da rapidez que mostrou noutras épocas, mas é sempre uma garantia na posse de bola porque sabe jogar. Nunca se escondeu do jogo e esteve sempre disponível para as funções defensivas. Mereceu o título que foi um prémio por todos estes anos de dedicação ao clube.
Seidy – bom, desculpem-me os outros mas o seidy é um caso à parte. Para mim não é apenas o melhor jogador do CDC. É o melhor jogador do campeonato! Isso notou-se nesta segunda volta em que foi vítima de marcações apertadas, como agora com o Febres. Mesmo assim, um craque é um craque e fez jogos fantásticos: resolveu em livres directos, marcou golos em que embalou do meio campo e só parou no golo (como contra o Vigor), jogou e fez jogar toda a equipa. Lembro-me de jogos em que a assistência o aplaudiu de pé. Uma pessoa vê este jogador e vê outros de divisões muito mais acima e pergunta-se «o que é que ele faz aqui? Ainda bem para o CDC.
Ivo – fez a melhor época dos últimos anos no CDC. Sempre achei que é um jogador que não explora todo o potencial (técnico e de velocidade) que possui. Este ano esteve mais próximo do seu valor real e o jogo com o Febres foi a prova disso – fez o melhor jogo que já lhe vi fazer e foi com o Alex, o melhor em campo. Foi decisivo nos cantos (por exemplo contra a AAC em casa) que bate muito bem. É o melhor flanqueador da equipa.
Alex – foi a melhor aquisição da época. Vi-o no início no torneio do Vigor e não me impressionou. Mas foi subindo e nesta ponta final atingiu um patamar muito alto. É o homem que marca o ritmo da equipa, sabe quando deve acelerar e abrandar o ritmo de jogo e isso numa distrital faz toda a diferença. É muito evoluído taticamente. Raramente perde um passe e é um dos responsáveis pelo facto do CDC ter geralmente a pose de bola. Ainda por cima é um exímio marcador de livres e de cantos. O 2-1 com o febres, mais uma vez nasce de um canto seu. Foi, quanto a mim, o melhor jogador em campo no jogo do título. Dizem-me que era defesa esquerdo – se assim era, foi mais uma excelente adaptação do treinador que o colocou a médio interior esquerdo.
Tuga – Foi o quinto médio da equipa. Apesar de franzino tem muita energia e é muito agressivo. Deixa sempre tudo em campo. Mas não se fica por aí uma vez que tem boa técnica e sabe jogar. Combina bem com seidy que procura geralmente para entregar a bola. Não me convenceu a médio ala (falta-lhe velocidade) mas é bom a interior mais defensivo.
Renato – foi um jogador pouco utilizado. Tem boa técnica. Se melhorar a agressividade e conseguir ter mais tempo de jogo (mais desarmes e mais posse de bola) vai melhorar muito.

Avançados –
Faria – Outro dos jogadores decisivos, vai ser, possivelmente, o melhor marcador do campeonato. Quem viu o Faria jogar há dois anos não o reconhece – era um jogador sem agressividade. Agora, pelo contrário, esta é a sua marca. O que o distingue de muitos outros pontas de lança é que estamos aqui perante um verdadeiro atleta que, a partir do momento em que resolveu ser agressivo, passou a ganhar vantagem nos duelos individuais. Ele é geralmente mais rápido, mais forte, mais ágil, tem mais impulsão e resistência que qualquer outro ponta de lança do campeonato. Há outros melhores tecnicamente mas não há nenhum que seja melhor atleta – é um jogador de ferro capaz de passar noventa minutos a chocar com os centrais e no fim está perfeito. Como se viu com o Febres e com o Vigor, jogos duros e de grande tensão em que marcou 4 golos. Não é só o melhor ponta de lança do campeonato – é o melhor atleta do campeonato. Vai ser o melhor marcador e merece.
Rafael Duarte – fez uma grande dupla com Faria e apontou 10 golos. Já não tem a velocidade de outros tempos mas ainda é um bom ponta de lança porque quem sabe não esquece. Sacrificou-se pela equipa no jogo em casa com a AAC – acabou lesionado com gravidade, depois de ter entrado já debilitado, mas apontou dois golos de cabeça. E nunca mais jogou… Mas sem esse sacríficio talvez o CDC não estivesse agora a festejar o título.
Girão – Por razões pessoais e profissionais só pôde dar o seu contributo à equipa na parte final do campeonato. A sua inscrição na parte final da época foi uma sábia decisão do treinador e da direcção. Sem pré época, vindo de uma operação e a entrar a meio – ainda por cima com o azar de se ter lesionado – não teve vida fácil. Destacou-se pela capacidade de sacríficio e pelo seu killer instinct – marcou dois golos decisivos num dos jogos chave do título (a vitória por 4-1 na pampilhosa) e fez o 2-1 na Vinha. Conseguiu resolver o problema que estava em aberto na frente com a lesão do Rafael Duarte e deixa a sua marca neste título. Podia ter sido usado mais vezes como médio, uma vez que é essa a sua posição de raiz.
– na parte final foi mais uma solução para as alas no ataque mas também fez, várias vezes, lateral direito. É uma das referências da equipa, um dos jogadores mais antigos que conseguiu sacudir a equipa nalguns jogos, principalmente a entrar pela direita.
Tibério – é um dos jogadores preferidos dos adeptos. Um extremo que ainda mantém a sua velocidade e consegue desequilibrar no um para um. Foi a solução de emergência para o lado esquerdo do ataque. Decisivo num dos jogos do título, contra o ançã.
Pardal- é uma das esperanças do plantel. A transição de júnior para sénior é sempre difícil e está a fazer o seu percurso. Tem potencial técnico e físico para aparecer na próxima época.

Em suma, o onze do CDC foi uma verdadeira equipa com os três sectores a complementarem-se muito bem: uma defesa dura, muito difícil de bater, um meio campo muito técnico que assegurou geralmente a posse de bola para a equipa e uma linha avançada rápida e letal que precisou de poucas oportunidades para marcar. Lances de bola parada muito bem trabalhados, capacidade de penetração nas alas, principalmente na direita, contra ataque rápido. Resultado: um número de golos recorde, o melhor ataque da prova com mais 2222 golos que o segundo ataque, o ançã.

Finalmente a equipa técnica: assina o maior feito da história do CDC, uma proeza que, como já disse, é muito maior do que possa parecer à  primeira vista, uma vez que o clube não dispunha do orçamento dos habituais campeões. É notável ter mantido a qualidade com um plantel relativamente curto. Um bom onze só não chega para enfrentar plantéis mais apetrechados, mas sendo certo que tinha alguns dos melhores jogadores, também é verdade que não tinha a quantidade de outros. Teve, pois, todo o mérito. Esteve muito bem nalgumas adaptações e nas aquisições cirúrugicas que foi fazendo na parte final do campeonato em colaboração com a direcção. Soube escalar em geral os melhores onzes para cada jogo e teve, geralmente, boas leituras de jogo (a excepção foi o jogo com a AAC dos 4-4…). Outro dos seus méritos foi o de saber renovar o plantel que herdou – metade do plantel já vinha da equipa técnica anterior. C. não fez nenhuma revolução, conservou o que achou melhor e complementou-o com boas aquisições. Resultou em cheio. No onze que defrontou o febres metade da equipa vinha dos plantéis de anos anteriores a esta equipa técnica (luís santos, canoso, seidy, ivo e girão) e a outra metade é da nova vaga (ricardo, chipi, vicente, alex e faria + o guarda redes mica). Conseguir este equilíbrio foi a chave do sucesso – manter o que está bem e acrescentar algo de novo. 

Uma palavra final para a anterior equipa técnica – se considerarmos este título o epílogo de um trabalho de 9/10 anos, então é justo atribuirmos algum mérito também à equipa técnica anterior que começou a desenvolver este trabalho. Claro que os méritos são para quem os consegue e foi esta e não outra equipa técnica a conseguir o título – mas é justo, ainda assim, reconhecer o bom trabalho e a transição pacífica da anterior para esta equipa técnica. Também nisto os directores estiveram á altura – em 9 anos, apenas dois treinadores e um plantel coeso reforçado ano a ano cirurgicamente com poucas mas boas aquisições. Parabéns a todos. Pode ser que o salto para o ano seja demasiado grande. È mais que provável. Mas é sempre uma oportunidade de aprendizagem e é assim que deve ser vista. Este título já ninguém o tira ao CDC!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

11 - Reinar, por Sousa



Desculpe? De simpatia?

Aah, ok! Não, não sei do que está a falar…

Pois então só pode ter gostado do que viu. Posso dizer-lhe que achei a situação meio absurda, mas não pude evitar o sorriso. No fundo acho que todos nós precisamos dessa simpatia, não é?

Claro que sei… e permita-me interrompê-lo um bocadinho: já o dizia aquele rei do Principezinho, que se ele ordenasse a um general que voasse de flor em flor como uma borboleta, a culpa de o general desrespeitar a sua ordem seria do próprio rei. Por isso, a regra para bem reinar é simples: só se pode exigir a uma pessoa o que ela pode dar. E foi precisamente o que fez comigo, ao pedir simpatia e não amizade…

Mas espere! Afinal como é o resto da história desse livro do Camus?

E agora pensando, acho que o engraçado é que mais depressa se dá amizade a alguém que pede simpatia do que simpatia a quem chega e pede amizade. Estranha ordem das coisas, estranha complexidade humana… e estranha sensação a minha. Sinto-me como se tivesse começado um livro e parado com muitas páginas ainda por ler.

Sousa 

10 - Preciso da sua simpatia, por Álvaro Nuno

Mais um. Bebo mais um e depois faço-o. Pronto. É agora ou nunca:

Beba um copo comigo. Preciso da sua simpatia.
Vejo que esta declaração lhe desperta espanto. Nunca teve uma súbita necessidade de simpatia, de auxílio, de amizade? Sim, com certeza. Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, não nos impõe nenhum compromisso.

Uau!

Sempre quis chegar a um bar, sentar-me ao pé de um desconhecido e dizer isto. É fantástico, não é? Reconheceu? As palavras não são minhas. Foi Camus que as escreveu. Gostei tanto delas que as repito mentalmente desde esse dia, mas nunca tinha tido o atrevimento de as usar. Até hoje.

Quer que lhe diga uma coisa…? Não sei bem ao certo porque queria vir ter consigo e dizer-lhe isto. No fundo acho que gostava de ser parte daquela história, de me sentir no desconcertante absurdo de Camus. Gostava de ver a reacção de alguém no mundo real àquela frase que me soou tão bem naquela noite em que a lia.

Tem toda a razão. E sabe que mais? Acho que estou satisfeito. Ou talvez não. De qualquer forma já tive tudo aquilo que lhe pedi. Não é todos os dias que nos dão aquilo que pedimos, sabe?

Precisamente, precisamente! Vejo que também gosta de ler… bem, mas não incomodo mais. Agradeço-lhe imenso o que me deu. Transformou mais uma noite escura no mais belo amanhecer.

Com a sua licença…

Sim? Ah, isso… ainda não acabei. Talvez um lho possa contar!

Álvaro Nuno

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

9 - Tempo / time, por Carlos Marques

Não, hoje não venho para escrever. Venho só pensar contigo. 
Imagina como seria a tua vida se soubesses a data precisa da tua morte. Seria mais feliz? Não sei… no fundo a morte é a única certeza da vida. Faria assim tanta diferença saber o segundo em que iríamos morrer? 

Sabes, eu cada vez mais me convenço de que todos tendemos a viver com os olhos postos no futuro. O que fazemos hoje deve fazer sentido amanhã. E, por isso mesmo, eu acho que seria impossível a qualquer pessoa viver da mesma forma tendo a certeza absoluta de que a sua vida acabaria amanhã pelas 17:23:55. 

É… como disse Bartol “todos pensamos demasiado no futuro e assim o presente continua a escapar-se-nos". Talvez devêssemos preocupar-nos mais com o dia de hoje. Sob pena de que mais tarde, quando já mais futuro não houver com que nos preocupar, estejamos condenados a olhar para um passado que não foi verdadeiramente vivido…

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

8 - Chora! / Cry!, por Álvaro Nuno


Que sentir ao ouvir o choro de um bebé?

Entendo que uma resposta apressada possa levar a palavras como aflição, incómodo, tristeza ou preocupação. Mas se pararmos para pensar, logo veremos que aquele choro é sinal de felicidade. Façamos um simples exercício:

Quantas vezes vimos o pequenote da família a chorar?
Quantas vezes vimos os nossos pais a chorar?
Quantas vezes vimos os nossos avós a chorar?

É verdade: o número de lágrimas é inversamente proporcional à idade de uma pessoa. “Porque nos tornamos fortes”, dir-me-ão. “Porque, como bons e experientes lutadores, temos de estar preparados para sofrer”.

Não.

Nós deixamos de chorar simplesmente porque a fonte começa a secar. Não porque nos tornemos fortes, não porque sejamos lutadores experientes. Pelo contrário: a ausência de lágrimas revela resignação, fraqueza, aceitação do inevitável sofrimento da vida. E quanto mais ela [a vida] passa mais essa resignação aumenta, mais essa fraqueza que para muitos é força cresce, mais essa tristeza sobeja.

O choro de um bebé deve ser símbolo de alegria, de vida, de pujança, de esperança. Deve ser o grito de revolta que procuramos manter durante toda a vida. 

E que bom que seria que, anos passados, pudéssemos continuar a chorar daquela forma.

Seria a irrefutável prova de que a vida não nos teria vencido.
Álvaro Nuno

domingo, 17 de fevereiro de 2013

7 - Inconsciência / Unconsciousness, por Mário Carvalho

Na inconsciência. É nela que reside a felicidade.

Para quê interrogarmo-nos sobre o sentido de algo que não o tem? Se a vida tivesse sentido, porque é que toda ela nos encaminharia ao seu oposto? Não há, na vida, sentido. Porque vivemos com a finalidade inevitável da morte.

É, portanto, na ausência da reflexão que reside a verdadeira felicidade.

Nada do que faço é feito por uma razão.
Simplesmente é feito.
Nada do que faço é feito com um objectivo.
Mas faço-o.

Que felicidade me traria procurar compreender o incompreensível? Procurará, porventura, uma pedra saber porque existe? Procurará uma pulga entender o seu papel no mundo?

Então para quê procurar arranjar motivo para andar, para respirar, para pestanejar? O mundo não tem de ser explicado. A vida também não.

Toda a vida é um cortejo.
Deixemo-nos, portanto, levar
neste passo fúnebre
rumo a um caixão
frio e cheio
de escuridão.

Mário Carvalho

6 - O contador de histórias / The storyteller, por Carlos Marques

Pedem-me para explicar em poucas linhas porque me sinto um jornalista e porque me dedico a contar histórias. Aceito o desafio.

Vivo
Com a convicção de que toda e cada pessoa tem algo a dizer e de que o que ela diz pode mudar uma vida.
Com a consciência de que muitas histórias, mensagens e lições se perdem porque quem as pode transmitir não tem ninguém que as queira ouvir.
E com a esperança de que, desempenhando o meu papel, possa fazer com que mensagens que se perderiam no silêncio da morte mudem a vida de alguém.

Ser um contador de histórias é tornar-me parte delas. É com elas crescer, com elas aprender e a elas me entregar. Sonhando sempre que fazendo o que mais amo dou voz a quem a não tem e música a quem a queira ouvir.  

Carlos Marques

5 - Uma vida normal / An ordinary life, por Ricardo Pires

Sempre tive uma vida normal.

Digo-o com prazer: adoro a minha vida. Posso lembrar todos os momentos como se os estivesse a viver agora mesmo. Bem… para dizer a verdade eu consigo, de facto, vivê-los neste preciso momento, se quiser. É uma dádiva, eu sei.

E, por falar em memórias, eu lembro-me sempre daquele juiz: “Ricardo Pires, você é considerado culpado de homicídio”.

Homicídio. Eles dizem que eu sou um assassino. Assassino da única mulher que amei em toda a minha vida. Não podem entender o quão absurdo é o que dizem. Tão absurdo que naquele momento eu percebi que não valia a pena explicar-lhes o que aconteceu na realidade.

Eu estava rotulado: para eles nunca iria passar de um assassino. De um louco. De um doente trancado neste hospício.

“Para garantir a segurança da sociedade”!

Fantástico.

Deixem-nos pensar o que quiserem.

Eu sei a verdade e a minha mulher também. Isto é o mais importante.

Porque, na realidade, façam eles o que fizerem…

Nunca me vão conseguir prender em lugar algum.

A minha alma deixou o meu corpo há muitos anos atrás. E graças a isso eu e a minha mulher vamos continuar a ser livres. Mesmo que o meu corpo esteja encerrado naquele hospício e o dela num caixão sete palmos abaixo da terra.

Por isso, sim, somos livres.

E continuaremos a ser.
Ricardo Pires

I have always had an ordinary life.
Yes, I think I can say it: I love my fucking life. I remember all the moments as if I was living them right now. Well… actually I can live those moments right now, if I want. It is a gift, I know.
I remember that judge so many times: “Ricardo Pires, you are considered as culprit of murder”.
Murder… they say I’m a murderer. Murderer of the only woman I have ever loved in my life. They cannot understand how absurd this shit is. When I heard those words from judge’s mouth I understood that it was not worth to explain them what happened in fact.
For them I’m just a murderer.
I’m just a mad, a sick person locked in this “madhouse”.
“To guarantee the safety of our society”.
Amazing.
Let them think what they want.
I know the truth and my wife knows it as well.
In fact they can make me everything…
but they will never be able to lock me anywhere.
My soul left my body many years ago. And me and my wife will keep leaving in freedom, even if my body is closed on that madhouse and hers six feet under.
Yes, we are free.
And we will always be.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

4 - Chama / Flame, por Álvaro Nuno

Quando dois aventureiros se cruzam, o presente só pode ser tão bom quanto impossível o futuro.

Cruzam-se algures num canal de Copenhaga, numa viagem de barco. O frio gela pulmões e penetra nos ossos. Eles são os dois únicos sentados do lado de fora da cobertura.

Não se conhecem mas a necessidade que sentem de viver a viagem sozinhos, de cabelos ao vento e a tremer de frio faz com que ajam como se se conhecessem há anos. Ela tira uma fotografia a si mesma e ele oferece-se para lhe tirar a seguinte.

Nessa foto ficaram os olhos verdes, cabelos claros e sorriso gravados para a posteridade. Como que cegos de amor, no instante seguinte abraçavam-se aqueles dois desconhecidos tão conhecidos e trocavam um beijo apaixonado antes mesmo de saberem o nome um do outro.

Da margem não pode ter passado despercebido aos pintores o quadro fantástico que à sua frente se desenha: ele, moreno e barbudo; ela de olhos verdes e cabelo claro. Ele e ela viajantes solitários a transformarem ambos os “eus” num “nós” de cabelos ao vento com Copenhaga como fundo, amantes de um momento eterno como o seu amor…

Para a história fica uma fotografia a que ele nunca terá acesso. Uma fotografia com ela de olhos verdes em chama. Com a chama de um amor tão verdadeiro que não teve sequer tempo de acontecer.

Álvaro Nuno

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

3 - Inércia / Inertia, por Carlos Marques

Já que é a primeira vez que vos escrevo mais pessoalmente, gostava de me apresentar: o meu nome é Carlos Marques e vivo como jornalista. Digo que vivo como jornalista porque para mim o jornalismo não é uma profissão, mas um modo de vida. Esteja ou não a trabalhar, não posso deixar de falar com as pessoas, de as ouvir, de aprender com elas.

Hoje no café cruzei-me com um tipo curioso. Enfermeiro. A certa altura perguntei-lhe se era feliz. Eu sei que é uma pergunta pouco usual, mas faço-a sempre que posso porque normalmente gera uma reacção surpreendente.

Ora esse tipo diz que mudou radicalmente a forma de ver a vida. Diz que é menos feliz que há uma semana e muito mais que há dois dias. Pelo meio parece que leu um livro que o fez pensar. Que o fez ter consciência.

É a primeira vez que me dizem que odeiam um autor porque ele lhe ensinou alguma coisa. Mas este tipo odeia-o genuinamente. Defende que a consciência é o mal de todas as coisas e que, por isso, desde há dois dias decidiu não mais ler, não mais aprender, não mais pensar.

É isso mesmo: ele diz-me que se considera feliz porque, apesar de consciente, vive e viverá inconscientemente. O pensamento que o guia é o de que quanto mais se aprende mais se sofre. Que conhecimento traz infelicidade.

Inércia. O que se pede é inércia. Se nenhuma força te for aplicada deves manter-te no teu estado natural, seja ele o repouso ou o movimento rectilíneo uniforme.

E é isso que ele faz. Evita as forças (o conhecimento, a aprendizagem) para poder aproveitar a vida tal como ela é (no seu movimento rectilíneo uniforme).

Diz-me o Mário que a partir de hoje viverá no seu estado natural.

Sem estudar.

Sem ler.

Sem aprender.

E, agora digo-o eu, o Mário viverá sem viver.

Carlos Marques

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