domingo, 23 de agosto de 2009

Aniversário




O meu poema preferido do Senhor Fernando Pessoa.
À medida que envelhecemos verificamos que o que nos rodeia se vai transformando. Este poema reflecte muito bem essa mudança, e, por isso, dá que pensar:


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

4 comentários:

Kikas disse...

Eu gosto dO Livro do Desassossego, um pouco pelo mesmo motivo, faz-nos pensar, reflectir e concluir que o homem nem era assim tão doido como muitos o apelidam.
Há momentos da vida em que até nos sentimos tal como ele, apesar de nem sempre o transmitirmos. :)

Ranhoca disse...

nunca li o livro todo mas o livro do desassossego é sem duvida um livro e tanto!

daqueles livros em que me vejo obrigado, em determinados momentos, largar a obra prima e bater palmas de pé pelo que ali li. (já o fiz acreditem)

o autor pode ter morrido mas o que está ali escrito não morreu e merece ser aplaudido. :)

Anónimo disse...

formato original dos posts sempre!

Mau disse...

Um grande post, Maldini...

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