terça-feira, 18 de agosto de 2009

2º Andar Direito, Sérgio Godinho [SdS 2]

Eu sei que Sérgio Godinho é, hoje em dia, colocado pelos jovens ao nível de Jorge Palma ou de André Sardet. E isso é algo que me custa bastante. Custa-me que um dos grandes cantores e lutadores portugueses seja considerado piroso. Ele que devia ser colocado ao nível de Zeca Afonso ou dos Xutos e Pontapés (num estilo diferente, claro).

Sim. Para mim, Sérgio Godinho é um dos melhores cantores portugueses. E sei que se hoje ele não é muito reconhecido, isso deve-se à grande diversidade de músicas que ele faz. Desde marchas a músicas de revolução, passando por canções de amor... É impossível agradar a Gregos e Troianos. E, provavelmente, algum de vocês que ouça uma marcha feita por ele pensa "Que piroseira!". E nunca mais volta a ouvir Sérgio Godinho...

Hoje o que eu vos quero mostrar é uma das mais belas canções de amor que conheço. Chama-se 2º Andar Direito e tem uma letra linda que está debaixo do vídeo. Mas mesmo que não gostem da balada (é um pouco lenta, de facto) não julguem o cantor apenas por esta música. Procurem conhecer mais músicas dele...

2º Andar Direito, de Sérgio Godinho:



Ele vinte anos, e ela dezoito
e há cinco dias sem trocarem palavra
lembrando as zangas que um só beijo curava
e esta história começa no instante
em que o homem empurra a porta pesada
e entra no quarto onde a mulher está deitada
a dormir de um sono ligeiro...
a dormir de um sono ligeiro.

E no quarto, às cegas,
o escuro abraça-o como que a um companheiro
que se conhece pelo tocar e pelo cheiro
e é o ruído que o chão faz que lhe traz
o gosto ao quarto depois de uma ruptura
faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
dos dias em que um beijo bastava...
dos dias em que um beijo bastava.

E agora, da cama
vem uma voz que diz sussurrando: És tu?
e a luz acende-se sobre um braço nu
e a mulher pergunta: a que vens agora?
é que não sei se reparaste na hora
deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
amanhã tenho de ir trabalhar...
amanhã tenho de ir trabalhar.

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais.

E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito a aprender...
que os dois ainda têm muito a aprender.

Se temos...! Diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: que queres que responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda...
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano...
e eu com ar de filme americano.

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de idade
o amor não é o bilhete de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar e deixar mudar...
de mudar e deixar mudar.

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais...

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive de imaginar
é preciso explicar que sou o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos...
e o prédio inteiro nos meus ouvidos.

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os
dois salários...)

Vá fala que o bebé está acordado
e vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho.

3 comentários:

Raquel Sega disse...

Eu sou jovem, e Sérgio Godinho é dos cantores portugueses que eu mais admiro. E esta é das músicas que mais gosto dele, e das minhas músicas preferidas. Sérgio Godinho não é piroso, claro que não! É um génio.

Nunes disse...

Essa primeira frase está uma confusão...

"Eu sei que Sérgio Godinho é, hoje em dia, colocado pelos jovens ao nível de Jorge Palma ou de André Sardet."

Ninguém no domínio de todas as suas capacidades intelectuais coloca o Sérgio Godinho ao nível do André Sardet, mas também ninguém o fará com o Jorge Palma...

Está a misturar na mesma frase o Sérgio Godinho, o Jorge Palma e o André Sardet, e desse saco só tira o Sérgio Godinho, como se fosse o que ali destoa. Na verdade, é o André Sardet o intruso, incomparavelmente menos inspirado e incrivelmente pior tanto que o Sérgio Godinho como que o Jorge Palma.

É como dizer que não se deve colocar o Chico Buarque ao nível do Caetano Veloso ou do Netinho...

Mau disse...

Caro Nunes: antes de mais seja bem-vindo e obrigado por comentar!

Passando agora ao seu comentário: tal como explico ao longo do post é impossível agradar a gregos e a troianos. Daí essa primeira frase: é, de facto, o que acontece. Entendo a sua crítica e, na minha opinião, o André Sardet será claramente o mais fraco. Mas é precisamente isso que digo: as pessoas metem 3 cantores completamente diferentes "no mesmo saco". Tem ideia de quantas vezes já ouvi jovens que adoram Sardet dizer que Sérgio Godinho é piroso? Acredite que foram muitas...

E igualmente em relação a Jorge Palma. E se concordo consigo que não se podem colocar o André Sardet e o Jorge Palma ao mesmo nível, também tenho de lhe dizer que, QUANTO A MIM, não se pode fazer o mesmo entre J. Palma e S. Godinho. É uma mera opinião de um fã, mas o blog é isso mesmo: um veículo de textos de opinião - pelo menos este blog é-o.

Assim, fazendo um exercício do género do que fez ao dizer que o que eu disse seria "como dizer que não se deve colocar o Chico Buarque ao nível do Caetano Veloso ou do Netinho...", isto seria o equivalente a, na música brasileira, dizer que não se poderia colocar no mesmo nível o Chico Buarque e o Seu Jorge ou o Netinho.

Porque, para mim, o Chico (como o S.G.) está um patamar acima do Seu Jorge (como o S.G. do Jorge Palma) e muitos acima de um qualquer Netinho (ou André Sardet).

E, seguindo a linha de raciocínio do texto, Chico Buarque (S.G) deveria ser colocado ao nível de Caetano Veloso (Zeca Afonso no texto). Óbvio que tudo são opiniões... mas a estrutura da frase partindo do que considero melhor para um de nível intermédio seguido de outro banal é propositada, como viu.

Espero que tenha ficado esclarecido o meu ponto de vista. Penso que não concordará com o facto de colocar Sérgio Godinho num patamar superior a Jorge Palma, mas isso já depende da opinião de cada um... (haverá quem considere que o Sardet é que está no patamar superior, não é verdade?)

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