segunda-feira, 30 de novembro de 2009

7 - O Mundo era eu quem o fazia

Durante anos pouco falei com o Patorras e com o Sakunga. A vida tem destas coisas: para se perseguir um sonho temos, por vezes, de deixar a terra que amamos e as pessoas com quem somos felizes.

Eram muitas as vezes que eu, um preto no mundo dos brancos, me via ali encostado à janela de minha casa, a pensar no que tinha perdido para perseguir, primeiro, o sonho de ser jogador profissional e, agora, de ser professor. Sim, tinha saudades de casa, da família. Tinha uma enorme mágoa: a de ter vivido tantos anos na selva sem que a tenha explorado devidamente.

Cumpri o meu sonho de tirar um curso. Tive boas notas. Tornei-me conhecido. Tinha uma boa casa, um bom carro, finanças equilibradas, emprego garantido, salário generoso... e livros. Muitos livros!

Por outro lado olhava para trás e sentia uma lágrima a correr-me pela face. Tinha a vida com que todos sonhavam... todos menos eu. E era comum ficar ali, encostado à janela a sonhar acordado, a chorar um sonho cumprido. Ficava parado com um chocolate na mão e as lágrimas a escorrerem-me pela face, a ver a chuva a cair. E via a chuva a cair mesmo que estivesse um dia de Sol. Porque naqueles momentos eram a saudade, a tristeza, a vontade de partir que me invadiam. E por mais Sol que estivesse na rua não faria sentido eu estar triste e a chorar sem chuva a cair. Por isso, para mim, a chuva caía. E quanto mais Sol estava mais eu a via a cair.

Tinha aprendido que o mundo era eu que o fazia. E conseguia transformar o dia de Sol mais radioso num dia de chuva. Conseguia mesmo. Tudo porque a tristeza tem esse poder... e a saudade também.

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17 comentários:

Kikas disse...

Tanto que este texto nos diz: começa por nos alertar para o facto de subaproveitarmos as oportunidades que temos e de, infelizmente, só mais tarde nos apercebermos disso; mas o alerta continua e estende-se para quando deixamos o que verdadeiramente nos faz feliz (mesmo que não o percebamos no momento), numa busca do que pensamos que nos fará ainda mais felizes e que é necessário para nos sentirmos completos, mas quantas são as vezes que nos engamos.

Por último, de que é que nos valem os bens materiais quando tudo o resto nos falta? O tangível pode saciar o corpo, mas só o que não se pode tocar e apenas sentir pode saciar a alma.

KaPiTãO disse...

Lindo texto Mau, e sábias palavras. Muito bonito mesmo. Já conhecia o teu dom da escrita e palavra, mas surpreendeste com este texto. E mesmo estando eu de férias no Algarve com um pouco de sol lá fora, não é que de repente começou a chover!!??? E lá fui eu encostar-me á janela relembrar tempos idos, quando os sonhos a conquistar eram outros...

Obrigado amigo por este momento!!

gordo e feio disse...

A magia de Mau não é só nos relvados ;)

Ranhoca disse...

Estou a gostar muito do que estou a ler, continua..

Sei que o fazes por gosto de escrever e nunca deixas de escrever para todos nós. Obrigado Mau

Só te digo isto pq sei quem tu és, devo ser sempre a ultima pessoa a elogiar alguém pttanto... não te estragues :)

Desculpa a minha ausencia no blog...

Moutinho disse...

Awesome! :)

Nao sei porquê, mas fizeste me lembrar, agora, quando estava no 10ºano e quando tu leste aquele texto na aula de portugues!

Devias postar esse texto no VPS!

O Magnífico disse...

Mau, o número 10 da escrita!

No entanto, tenho a dizer-te que estou profundamente desiludido contigo, não apareço na história, é?

Kafka disse...

Grande texto, grandes comparações, grandes referências!!
Realmente ninguém é feliz com todos os bens materiais do Mundo se lhe faltar AMIZADE, amor ou qualqer outro sentimento.

E é meme isso, a amizade, qe alimenta o blog e toda a nossa história.

Ah, e o livro está BRUTAL ! :D

Maldini disse...

Agora fazem jantares uns em casa dos outros?:D ahah

Bem, acho que está na altura de apresentares este livro a uma editora para ganhares uns fundos para o proximo jantar;)

Facs disse...

o quê?

Não percebi maldini...

"Agora fazem jantares uns em casa dos outros?:D ahah"

Anónimo disse...

Um texto escrito desta forma, dá que pensar...
Por tudo o que já passámos enquanto miúdos e o que passamos diariamente na vida social e na vida escolar.
A grande lição de vida que se pode ter é a aprendizagem que estamos sujeitos diariamente.
Podemos não conseguir atingir o topo, mas podemos e devemos lutar para que isso aconteça, em que circunstância seja.

Abraço

Maldini disse...

Mais uma etapa do retrato da equipa, nada mais...

Asus disse...

O melhor texto que aparece no livro até agora. Bem escrito e que é, ao mesmo tempo, um autêntico "manual" do ser humano. A saudade, a tristeza, a nostalgia, o poder de viver...

Muitos parabéns, Mau! Próximo amanhã a que horas?

Asus disse...

E a imagem... lindo!

Aris-tof disse...

O melhor... parabéns, Mau!

Mau-r-à-dona disse...

Em primeiro lugar, obrigado a todos os que têm tido paciência para ler estes textos.

Em segundo, muito obrigado a todos os que se preocupam em comentar os textos. É sempre bom ter a certeza de que há alguém a lê-los e a gostar (ou não) deles.

Em terceiro lugar, MUITÍSSIMO OBRIGADO ao Kapitão, que fez um comentário que, na minha opinião, está bem melhor que qualquer post.

Obrigado a todos, do fundo do coração.

Ah... é noite. Lá fora continua a chover ;')

Mau-r-à-dona disse...

Amanhã (ou hoje) às 11horas, Asus ;D

B disse...

"Em segundo, muito obrigado a todos os que se preocupam em comentar os textos. É sempre bom ter a certeza de que há alguém a lê-los e a gostar (ou não) deles." serviu-me lol

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