quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não votaram nele? Bravo!



 A 25 de Novembro de 2009 Sócrates garantiu que não aumentaria impostos.
A 8 de Março de 2010 Sócrates vangloriou-se: “O mais fácil seria aumentar impostos”
A 12 de Maio de 2010 Sócrates estava satisfeito com crescimento no primeiro trimestre.
A 6 de Junho de 2010 Sócrates garantiu que o mais recente aumento de impostos era suficiente.
A 2 de Julho de 2010 Sócrates dizia que o crescimento do desemprego vai continuar a abrandar .
A 13 de Agosto de 2010 Sócrates garantia que o crescimento do PIB no segundo trimestre consiste num “sinal de grande encorajamento e confiança para a recuperação da economia portuguesa”.
A 24 de Agostro de 2010 Sócrates afirmava que o crescimento da economia portuguesa, entre Janeiro e Junho, foi o dobro do previsto pelo Governo.
A 29 de Setembro de 2010 Sócrates anuncia o segundo aumento de impostos do ano.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Meu sonho é morar numa favela

 
Eu estou em casa. 

Minha casa é a rua, é o Rio. A cama? A cama é isso aí... o chão. Toda a noite eu durmo ali, naquele degrau à saída do metro. Quando chove, como hoje, chego-me para aquele parapeito só para não apanhar tanta chuva. Não há lugares abrigados aqui no Flamengo. Quando chove o melhor é conhecer bem o lugar, para não apanhar um daqueles sítios em que a água se acumula.

Não tenho nada neste mundo. Só a roupa que tenho vestida, o meu corpo e a manta que fiz com os retalhos dos panos que encontrava no lixo. O lixo ainda é a minha sorte: todos os dias me levanto e vou remexer os caixotes em busca de latas velhas. 'Cê sabe que por cada kg de latas lhe dão 2 reais [86 cêntimos]? Bom negócio para quem vive na rua...

Família e amigos? Família nunca tive. Meus pais me abandonaram em pequeno nas ruas. Nunca os conheci. Amigos tinha lá na Rocinha [Favela]... uns foram mortos, outros estão presos, outros afastaram-se. Sabe que há coisas mais importantes que a amizade [mostra-me as mãos cheias de cicatrizes, como se tivessem sido trespassadas por um prego bem grosso].

Sabe o que é isso? É o maior erro da minha vida. Vivia eu na Rocinha e decidi roubar um turista que lá ia. Tinha fome. Ele tinha ido com máquina fotográfica para a Favela. Uma máquina daquelas dá-te comida para o mês inteiro, talvez para o ano. O papel do turista é não mostrar a riqueza. Se ele não cumpre o seu papel tenho eu de cumprir o meu: quem pode criticar?

Acontece que os traficantes não querem má publicidade para a Favela, senão não têm quem se aventure para lá ir comprar droga. São eles que controlam tudo, são eles que sabem tudo. A lei da favela é a lei do traficante, nunca a da polícia. Apanharam-me e disseram: 
"Mete as mãos uma em cima da outra. Sabes o que te acontece da próxima vez? Ficas sem elas, para aprenderes a não roubar. Desta vez seremos brandos... PUM!" 

Sim, mandaram um tiro nas minhas mãos. Furou as duas... Nesse dia eu decidi fugir da Rocinha. Era perigoso para mim e para os meus amigos. Eles também não mais me procuraram. Não guardo mágoa: eu faria o mesmo.

E, cara, agora eu dou valor ao que tinha. Ser um cidadão, mesmo que da favela, é muito melhor que ser lixo. Na verdade é o que eu sou. Só tenho o mar para me lavar. A minha rotina é simples: acordo, vou dar um mergulho - quando estou em condições -, procuro latas nos caixotes e, ao fim do dia, conto o dinheiro que juntei. Nos dias bons consigo 2 kgs de latas. São 6 reais. Não dá para uma refeição - a mais barata custa 8 reais e ainda por cima ninguém quer um monte de lixo sentado numa mesa ou ao balcão: dá mau aspecto -, mas já dá para comer qualquer coisinha. Um desses espetinhos na rua custam 3 reais. É o que costumo comer...

Depois disso, à noite, vou buscar o crack e a maconha para poder vender. Faço sempre um bom negócio: ganho 10 reais por dia se conseguir vender todo o stock. Em troca dão-me a dose suficiente para mim.

Faz mal? Eu sei. Mas como quer que eu viva com 6 reais? E 6 é nos dias bons! As latas velhas não sustentam ninguém. Os 10 reais da droga já me dão para qualquer coisa. Muitas das vezes gasto-os a comprar-me droga a mim mesmo: quando não acabo de vender o stock compensa-me mais comprar o que falta, para poder ganhar o dinheiro no dia seguinte. 

E quando a fome aperta, roubo. A fome e a "fome", claro. Só faz sentido um rapaz não ter vícios enquanto tem uma vida. Depois de ser lixo não há droga que o faça pior do que já é. Deixa-o fora de você, faz com que você esqueça as coisas e que adapte comportamentos que não teria de outra forma? E não é isso uma vantagem para um monte de lixo, pô? Quem se quer lembrar daquilo que é, de como age, daquilo que sente, se não é mais do que o "podre" que estraga as ruas do Rio e que tem de ser "varrido" para que se tirem as fotos para o cartão postal?

É uma vida de lixo. Não merece ser vivida. A droga fazer mal à saúde é a maior vantagem que vejo nela...

Bem, amigo, vou ter de ir procurar latas. Estas aqui não chegam sequer a meio quilo e já está quase na hora de almoço. Isto hoje está fraco. Provavelmente haverá um furto no Flamengo ao anoitecer...

domingo, 26 de setembro de 2010

Passeando pelo Centro do Rio (Parte I)


Primeiro que tudo deixe-me pedir desculpa ao JoãoMouRinho e ao Kapitão por ter "abafado" os posts, mas este post ou era agora ou já não era... 

[para ver os dois posts cliquem aqui e aqui]

Hoje tomei a (extremamente difícil) decisão de ir passear pelo Centro do Rio de Janeiro e não ver o Benfica. Falha grave. Contudo, como bom benfiquista que sou encarreguei-me de pedir a uns benfiquistas de confiança para me irem fazendo o relato enquanto o jogo decorria.

Passo, então, a contar-vos a minha tarde no Centro do Rio (horário do Rio de Janeiro):
15:43:14 - de Yaúca: "Grande lance de Gaitan e Saviola falha golo feito"
15:43:59 - de Poulsen: "Meia hora de pressão intensa mas não marcámos!"
15:45:24 - de Yaúca: "Outra vez Gaitán e Saviola falha"
15:50:30 - de Poulsen: "Mais um penalty por assinalar!"
15:51:15 - de Yaúca: "PENALTY DO TAMANHO DO CRISTO REDENTOR SOBRE O SAVIOLA. NÃO MARCA! INCRÍVEL!"
15:51:15 - de Yaúca: "Grande jogada do Cardozo e Gaitán falha. Antes disso grande defesa do Roberto"
16:01:43 - de Poulsen: "Não está facil. Já falhámos três golos claros..."
16:25:18 - de Yaúca: "Cardozo absolutamente isolado falha!"
16:27:10 - de Poulsen: "Mais dos golos certos falhados"
16:27:48 - de Yaúca: "Ainda mais incrível: Cardozo. Desta vez sem guarda-redes!"
16:31:06 - de M: "Golo do Benfica, Fábio Coentrão :)"
16:31:06 - de Yaúca: "GOLAÇO COENTRÃO!"
16:31:38 - de Poulsen: "Golo!!! Fábio!"
16:39:02 - de Yaúca: "Grande defesa do Roberto! A seguir o Saviola falha"
16:55:05 - de Argolinhas: "Estamos a ganhar 1-0, golo do Coentrão. O Cardozo falhou 2 sozinho, o Saviola mais 2 e o Gaitán outro. Ficou um penalty por marcar sobre o Saviola."
17:11:01 - de Argolinhas: "Ganhámos 1-0"
17:11:40 - de Poulsen: "Vitória :)"
17:12:04 - de Yaúca: "Vitória com mau árbitro. Fábio man of the match!"

E agora digam-me: alguém viu o jogo melhor do que eu?! Claro que não!!!
Obrigado Yaúca, Poulsen, Argolinhas e M, por me terem permitido ver o jogo enquanto passeava pelo Centro do Rio!

sábado, 25 de setembro de 2010

Cronici di Napoli - Primo Episodio



Decidi mudar de casa. Primeiro, a minha casa é muito pouco arejada e, segundo, tem um grande problema: não tenho rede. Como é que é possível??? Por isso, peguei nas minhas coisas e comecei à procura de uma stanza para mim, enquanto tento alugar o apartamento que já tinha pago anteriormente (uma grande confusão – é esta a minha vida nestes dias...).

Enquanto fazia uma pausa na minha vida de Jorge Mendes, decidi ir ao supermercati per trovare alcun cosa per mangiare. Quando me dirigia para casa vi três pessoas a olhar para um affitassi, escrevendo num caderno o respectivo número do telemóvel do inquilino. Nisto, perguntei:
- Sei italiano?
- No, no!
- Sei spagnolo?
- MouRinhooo!!
- Não posso! Como vos fui encontrar?!
- Já te ando a ligar desde ontem, mas tu tens sempre o telemóvel desligado!
- Não, por acaso está bem ligado, mas eu não tenho rede em casa e ontem só sai um pouco para ir à faculdade…

Tinha acabado de encontrar os meus amigos de Lisboa: due ragazzi e une ragazza. Eles não podem partilhar o meu “piso” porque só ficam em Nápoles durante seis meses – e eu fico um ano. Portanto, decidimos ir a minha casa deixar as coisas que tinha comprado e fomos procurar apartamentos. Vimos dois, mas para a história fica só um:

Eram 17 horas e já tínhamos ligado três vezes para a pessoa que tinha combinado mostrar-nos o apartamento. Estava presa no trânsito, disse-nos. Ficámos à espera dela em frente a um palazzo vicino a la piazza Luigi Mariglia. Era realmente um prédio muito bem arranjado, com porteiro e, acima de tudo, era limpo – se vivessem em Nápoles iam aprender a dar valor a isso.

Passado uns breves instantes, lá chegaram a dona do apartamento e outras duas pessoas. Tinha mesmo valido a pena tal espera. Fomos cumprimentados pela dona do apartamento, com os seus 65 anos, pela filha, Maria Laura, talvez uns 26, e uma amiga, que pouco importa para história – apesar de ser um pedaço a considerar.
“Sorry, but wasn’t my fault”, desculpava-se Maria Laura.

Eu nem respondi. Apenas pensava: de onde é que isto saiu?!?!?!
Não podia fazer qualquer tipo de comentário, pois mal conhecia os rapazes e a rapariga.
- Andiamo, andiamo! – guinchava a velha que irritava até aos cães que vagueavam pelas ruelas!

Entrámos no prédio, subimos até ao 1º piano e entrámos no verdadeiro palácio. Eu estava maravilhado com o que estava a ver: Uma casa enorme, super moderna, com dois quarto duplos, uma casa de banho com hidromassagem, duas varandas enormes (uma dum quarto virado para a rua e a outra que ligava a cozinha com o primeiro quarto, virada para o terraço interior do prédio), duas televisões enormes, fogão, placa vitro cerâmica… BELLISSIMA!

Foi então que comecei a falar com a Maria Laura:
- How much is this flat?
- 1000 euros, 250 per person
- With condominio?
- Yes, more gas and electricity. It will be 80 euros by 2 months…

Expliquei a minha situação, dizendo que estava noutro apartamento mas que queria mudar para mais perto e para um local com melhores condições. Ela foi muito simpática comigo e perguntou-me onde eu estava. De seguida, sem eu estar à espera, diz:
- Can I see your apartment? I want to live here, near this place.
- But my flat is for two people!
- Yeah, don’t worry. I’ll see with my friend.

Nisto ela tropeça e quase que cai para cima de mim (isto eu não vi, foi-me dito por um dos rapazes). “Mas porque raio esta rapariga quer ver o meu apartamento, visto que tem aqui uma casa espectacular?”, pensava eu.

Continuámos a ver os pormenores da casa e ela vem atrás de mim:
- Where you came from? What are you studying?
Eu, sinceramente, estava mais preocupado com a casa do que com ela, mas aquilo estava-me a perturbar!
Quando saímos da casa, ela pergunta-me:
- How old are you?
- 20.
- Do you want take a coffe now?
- Erm… yes… – “mas não era para ver a minha casa? Onde eu me fui meter…”
- Olhem, alguém que venha comigo ver a casa com ela. Estou com medo que me roube ou me tire algum rim. É que já me aconteceu uma historia um pouco estranha aqui em Nápoles… Olha, vem tu, que andas no kickboxing – dizia eu para um deles.

Ele não se importou, até porque ela era maravilhosa: talvez das raparigas mais bonitas e mais compostas que alguma vez havia observado na minha vida!

Fomos tomar o café, ela pagou-me e fomos para a minha casa. Nada de outro mundo se passou. Apercebeu-se de que eu estava um pouco receoso, viu a casa e disse que não era bem aquilo que estava à espera de encontrar. Na verdade, a casa não se comparava à da mãe dela.

Saímos e fomos ter com os outros dois. Não sei o que se passou, estava super nervoso: primeiro, porque não sabia o que uma rapariga daquelas pretendia da minha casa, depois porque Nápoles não é propriamente uma cidade segura e, por fim, não sabia o que ela via em mim para confiar tanto e ir ver uma casa que nem sequer era minha, sendo ela napolitana, ainda por cima!

A história que vos conto não tem um final feliz, mas pode vir a ter. Porquê? Porque antes de sairmos do palácio real, ela deu-me o número dela. Independentemente de ficar ou não com a casa, vou-lhe mandar um messagio!!!

PS: No fim de tudo, e quando já estávamos de volta aos nossos negócios, o rapaz do kickboxing disse me assim:
-Mas tu ouviste bem o que ela disse lá em casa?
-O quê?
-Ah quando aqui fizerem festas convidem-me…
-Estava tão nervoso que parte das coisas que ela dizia não conseguia ouvir!
-E viste o que a outra amiga fez à Maria Laura quando saímos do café?
-Não… O quê?
-…

Parabéns!


Hoje é dia de festa. Nasceu às 00:53 o primeiro bebé do VaiPaSelva!

Parabéns Kapitão!

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