segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Procura-se um amigo


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes

sábado, 14 de agosto de 2010

Falta


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A soldado desconhecida


Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. 

Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, 

Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?

Por FERREIRA FERNANDES, Diário de Notícias

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um primeiro olhar sobre o Rio


Ontem comecei a viver o MEU Rio. Provavelmente um Rio que não faz inveja a ninguém, mas o Rio que, sem dúvida, eu prefiro viver...

Este primeiro dia foi vivido sozinho. Fui a correr de Ipanema ao Leblon, do Leblon ao Arpoador e daí para Ipanema novamente, onde tenho casa. Comi a bela sanduíche de atum que me vai acompanhar durante seis meses à hora de almoço e logo retomei.

Inicialmente a ideia era partir à procura de um campo de futebol de praia. Ipanema, Arpoador, Copacabana... mas logo surgiu algo muito diferente do que eu podia imaginar. Em vez do campo de futebol encontrei uma beleza incrível. 

As gaivotas a rasar as ondas enormes que batiam com estrondo na areia, que reflectiam o sol, que molhavam as crianças, que desafiavam os surfistas, que destruíam os castelos de areia que, com carinho, iam sendo construídos por pais ajudando seus filhos.

Ali fiquei, em plena praia de Copacabana, sentado a sentir o meu Rio. Toda aquela harmonia crescia dentro da minha cabeça ao som do Samba de Orly. Havia no ar algo que eu nunca tinha vivido e que, por isso, se torna difícil de explicar...

O Rio é uma cidade diferente. É cheia de ritmos, de histórias, de Sol e de gente. É uma cidade onde a poesia nasce a cada esquina, onde cada raio de Sol nos ilumina com os mais belos versos.

Já ao final da tarde, com o Sol a esconder-se atrás dos Morros, parecia terminar a poesia. Uns metros à minha frente comecei a ver uma multidão, uma espécie de procissão... acelerei o passo para tentar perceber o que se passava. E é então que começo a ouvir uma banda em tons de Jazz, mas com ritmos de Bossa Nova.

Faziam a ligação perfeita ao ambiente fantástico que se vivia. Mas não ficavam parados num sítio. Continuavam a andar ao longo de todo o calçadão e eram de tal modo especiais que muita gente saía da praia para os ir ouvir e acompanhar no seu percurso. Andei uns minutos no passo lento da banda. Aquela música tinha um sabor especial.

O Sol quase desaparecera e a banda parara. Um monumental aplauso surgiu vindo das ruas, das praias, das ondas, dos bares...

Imediatamente pensei que o Chico Buarque não terá precisado de tanta imaginação quanto eu supunha para escrever uma das minhas músicas preferidas: A Banda.

Desiludido por não ter conseguido ouvir aquela harmonia toda por mais tempo, encaminhei-me em passo lento até ao mar. Dei o último mergulho do dia e estive a ver o Sol a esconder-se entre o Morro Dois Irmãos.

Naquele passo lento e em silêncio, a tentar aproveitar o que nunca tinha sentido, dirigi-me até casa. Antes de virar a esquina atrevi-me a deitar um último olhar sobre aquele mar... e logo me vieram à cabeça as palavras de Carlos Drummond de Andrade:
No mar estava escrita uma cidade.
Estava mesmo...

domingo, 8 de agosto de 2010

O primeiro dia do resto da minha vida...


Tal como fui dizendo para quem queria (e para quem não queria) ouvir, este blog vai passar a ter mais uma nobre função. Vamos ter alguns selvagens e muitos visitantes espalhados pelo mundo. Muitas histórias terão para contar, sejam elas boas ou más. Seria óptimo se conseguissemos tornar este sítio naquele cantinho do Mundo em que as podemos partilhar.

Este é o meu primeiro post na Cidade Maravilhosa. Hoje é o dia em que me separei das pessoas que mais amo.

E é por isso que me surgiu esta dúvida:
Será mais triste uma despedida triste, ou uma despedida sem tristeza?

Eu prefiro a primeira.

Definitivamente...

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