terça-feira, 1 de dezembro de 2009

8 - A minha primeira carta


Foi em meados de Dezembro que recebi uma carta em minha casa. Vinha em muito mau estado. Parecia ter sido enviada já há bastante tempo e ter percorrido um longo caminho, cheio de moradas erradas até chegar às minhas mãos.

Abri-a, encantado. Era a primeira vez que recebia uma carta... pensei que fosse do João. Logo percebi que não era. Quem me escrevia era alguém em nome dos meus pais. Li a carta. Parei numa frase. Li-a novamente. Li, reli e voltei a reler para ter a certeza de que estava a ler bem.
"O João morreu doente aqui na Selva. Perguntava muitas vezes por ti. Dizia-nos muitas vezes que tu havias de voltar. Pedia-nos que, quando isso acontecesse, te recordássemos da promessa que lhe tinhas feito no dia em que partiste..."

Sentia os olhos, o cérebro, o coração, o corpo a rebentar...

"O João morreu doente aqui na Selva."
"O João morreu doente aqui na Selva."
"O João morreu doente aqui na Selva."

O João... ele que me dera o mundo a conhecer. Tinha morrido sem mim por perto. Tinha morrido sem que eu pudesse estar no funeral dele ou sem que, sequer, soubesse a tempo e horas o que havia acontecido. E agora, que seria das crianças de lá? Quem lhes mostraria o mundo, quem as ensinaria a ler, a escrever... quem lhes mostraria o que era um livro e para que servia? Quem?

Aí, triste demais para chorar, respondi para mim:
- EU.

E lá fora... lá fora começara a chover...

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2 - O homem que deitava fogo pela boca
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4 - A Prenda
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6 - Três Caminhos
7 - O Mundo era eu quem o fazia

Fotografia tirada do site http://olhares.aeiou.pt/

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

7 - O Mundo era eu quem o fazia

Durante anos pouco falei com o Patorras e com o Sakunga. A vida tem destas coisas: para se perseguir um sonho temos, por vezes, de deixar a terra que amamos e as pessoas com quem somos felizes.

Eram muitas as vezes que eu, um preto no mundo dos brancos, me via ali encostado à janela de minha casa, a pensar no que tinha perdido para perseguir, primeiro, o sonho de ser jogador profissional e, agora, de ser professor. Sim, tinha saudades de casa, da família. Tinha uma enorme mágoa: a de ter vivido tantos anos na selva sem que a tenha explorado devidamente.

Cumpri o meu sonho de tirar um curso. Tive boas notas. Tornei-me conhecido. Tinha uma boa casa, um bom carro, finanças equilibradas, emprego garantido, salário generoso... e livros. Muitos livros!

Por outro lado olhava para trás e sentia uma lágrima a correr-me pela face. Tinha a vida com que todos sonhavam... todos menos eu. E era comum ficar ali, encostado à janela a sonhar acordado, a chorar um sonho cumprido. Ficava parado com um chocolate na mão e as lágrimas a escorrerem-me pela face, a ver a chuva a cair. E via a chuva a cair mesmo que estivesse um dia de Sol. Porque naqueles momentos eram a saudade, a tristeza, a vontade de partir que me invadiam. E por mais Sol que estivesse na rua não faria sentido eu estar triste e a chorar sem chuva a cair. Por isso, para mim, a chuva caía. E quanto mais Sol estava mais eu a via a cair.

Tinha aprendido que o mundo era eu que o fazia. E conseguia transformar o dia de Sol mais radioso num dia de chuva. Conseguia mesmo. Tudo porque a tristeza tem esse poder... e a saudade também.

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domingo, 29 de novembro de 2009

Elogio a Javi

Há uma coisa que eu gosto num jogador: o espírito de sacrifício com que se entregue ao jogo. Por isso fiz este post. Não por se tratar de um jogador do Benfica. Mas porque acho que jogadores destes merecem.

PS: Hoje no Dragão o Porto marcou o golo da vitória e os adeptos festejaram gritando: SLB SLB SLB Filhos da p... SLB!

Uma pergunta: para quê?

Foto retirada daqui: http://www.abola.pt/

6 - Três caminhos


Estávamos num treino quando, de repente, vimos um colega nosso a contorcer-se no chão com dores. Tinha-se lesionado gravemente no joelho. Aquela expressão de dor marcou especialmente o Sakunga.

Ao notar o efeito que aquele momento tinha tido no meu amigo decidi levá-lo a uma biblioteca. Mostrei-lhe alguns livros do corpo humano. Leu-os de uma ponta à outra. Depois mostrei-lhe alguns de medicina pensando, sinceramente, que ele não ia achar piada nenhuma àquilo, visto que era uma linguagem muito técnica. Efeito contrário: era frequente ver o Sakunga a chegar ao quarto à noite com diferentes livros debaixo do braço. Todos eles com um tema em comum: medicina.

Assisti, assim, ao nascer de mais um sonho. Todos os dias o Sakunga lia mais qualquer coisa, queria aprender algo mais sobre o tema. Depois começou a aparecer lesionado nos treinos. Ainda hoje desconfio que inventava lesões de modo a aprender com os médicos que o tratavam...

E, assim, anos depois, surgiu o dia que tanto temíamos: o dia da separação. Todos nós tínhamos traçado o nosso caminho.

Eu ficaria em Portugal a estudar para um dia ser Professor de Língua Portuguesa (apesar de não me limitar a estudar apenas Língua Portuguesa, porque senão não poderia cumprir o meu sonho de ensinar tudo como o João um dia fez comigo).

O Sakunga ia para Espanha. Teria de aprender uma língua nova e de adaptar-se a uma nova cidade ainda maior: Barcelona. Iria estudar Medicina, como desejava...

O Patorras continuaria a jogar futebol, como sempre desejou. Não conseguiu ficar na equipa que tinha representado durante todos estes anos. Tinha sido emprestado a uma equipa da 2ª Divisão Italiana.

Foi um dia muito triste e marcante para nós: três meninos que se conheceram no dia em que nasceram e que nunca se afastaram até ao dia em que os seus sonhos os separaram. Assim, sem mais nem menos. Sem certeza, sequer, de que se voltariam a ver...

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Fotografia tirada do site http://olhares.aeiou.pt/

sábado, 28 de novembro de 2009

5 - O Novo Mundo


Chegámos a um novo mundo para jogar nos escalões jovens desta equipa de topo. Muitos sonhos pela frente numa realidade completamente nova. Instalaram-nos aos 3 no mesmo quarto. Inscreveram-nos, também, na escola.

Já tínhamos aprendido a ler e a escrever com o João, bem como a fazer contas e outras coisas mais básicas. E foi num desses dias de escola que nos deram a conhecer a tal coisa de que o João me tinha falado: o LIVRO!

Lembro-me que mal ouvi essa palavra comecei a ouvir a professora com toda a minha atenção. Ia finalmente descobrir o que havia de tão especial num livro. Porque queria o João que eu procurasse um livro quando cá chegasse?

- O Livro é um amigo - dizia a professora.

"O Livro é um amigo. O Livro é um amigo." Aquelas palavras ecoavam na minha cabeça. No final da aula fui falar com a professora. Queria que ela me desse um livro. Ela foi comigo a uma livraria e deu-me um escolhido por ela.

Nessa noite não dormi. Comecei a ler e não mais parei até que me chamaram para tomar o pequeno-almoço e ir treinar. Tinha descoberto um mundo novo, um poder especial. Tinha finalmente entendido o pedido do João. Ele queria mostrar-me o que de melhor há na civilização: o livro.

Comecei a desleixar-me no futebol. Ao contrário do Patorras e do Sakunga eu tinha descoberto uma nova paixão, tinha renovado os meus sonhos. A partir de agora queria ser professor. Como o João. Queria ler, queria aprender, queria... ensinar outros meninos como a mim me ensinaram um dia.

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Fotografia tirada do site http://olhares.aeiou.pt/

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